Aula 05/12/2013: Senta aqui, ó

Pessoal, eu vi alguns comentários perguntando do meu sumiço, me desculpem. Continuo ensinando português, só não tenho blogado por falta de tempo, mas hoje teve uma coisa tão legal na aula que eu precisei dar uma passada aqui pra contar.

Pois bem, eu hoje perguntei à minha aluna M-san se ela conhecia o verbo “sentar”. Ela prontamente falou que sim, que ouve muito no Brasil a frase: “Senta aqui”. Depois ela pensou um pouco e falou que a gente fala um “ó” no final.

“Senta aqui, ó.”, mostrando uma cadeira.

E esse “ó” faz toda a diferença, né? Não tem significado nenhum (seria um “olha”, ao pé da letra), pode ser omitido, mas é ele que faz a frase parecer de um falante nativo, coisa linda que a M-san conseguiu reparar.

Aula 16/04/2013: bom dia

Ah, mais uma coisinha que apareceu na aula dessa semana: bom dia. É claro que a minha aluna já sabia falar bom dia muito antes de ter aula comigo, afinal ela mora no Brasil. Mas essa semana ela veio com uma dúvida: bom dia significa alguma coisa além de uma saudação?

Fiquei pensando e perguntei onde ela ouviu esse outro bom dia. Ela falou que às vezes as pessoas falavam bom dia na hora de se despedir. Bom dia na hora de se despedir?

Pois é, tem lugares, principalmente lojas e serviços por telefone que se despedem com tenha um bom dia. Esse bom dia aí não é de saudação, mas uma forma de expressar um desejo, um voto, de que o outro tenha um dia bom. Inclusive, como a minha própria aluna notou, as pessoas falam isso depois do meio-dia, quando já deveria entrar na regra do boa tarde (se fosse o bom dia de saudação).

Tá aí mais uma coisa que eu nunca tinha pensado sobre o bom dia.

Aula 16/04/2013: feminino e masculino

Tá aí um tópico que choca qualquer pessoa que não fala uma língua latina (e outras, na verdade): feminino e masculino.

Hoje foi o dia de dar a notícia para a M-san, que nós, falantes da última flor do Lácio que somos, separamos em feminino e masculino todos os substantivos e que isso muda os adjetivos, os artigos e todas as coisas que orbitam os benditos.

Agora, deixa eu te contar a parte ruim (como assim essa não era a parte ruim, era a boa?): não existe muita regra pra saber se é feminino ou masculino. Ui.

(A regra básica é: terminou em A é feminino, em O é masculino. O resto tem que ver no dicionário. E logo em seguida vem a pergunta do aluno, mas então bom dia não deveria ser boa dia? Não, porque dia, apesar de terminado em A, é masculino, é exceção.)

Nós temos isso bem aprendido na nossa cabeça, então pra nós não é difícil. Nem mesmo para as crianças, o ouvido vai sendo treinado e, pumba, sem nem pensar já usamos do jeito certo. Tá bom, tem uns que a gente tem que revisar na escola, mas são poucos, tipo champanhe, alface ou dó.

Como consolo para os meus alunos, eu gosto de falar que, se eles errarem o gênero, as pessoas provavelmente vão entender, vai ser engraçado mas vão relevar porque sabem que é um estrangeiro falando. (E, num país estrangeiro eu acho que vale tudo para se comunicar, inclusive falar errado, só não vale perder oportunidades só porque não fala a língua corretamente.) A outra vantagem é que, aprendido isso em português, ganha-se de brinde o espanhol, o francês, o italiano… (com exceções, é claro, mas são poucas).

A reação da minha aluna a tudo isso foi que português é difícil e inglês deve ser fácil para nós. Bom, nesse aspecto sim, mas em outros não, então uma coisa compensa a outra e toda língua tem seus desafios. Isso é o que torna aprender (e ensinar) línguas tão divertido!

Luto: Lucas Amura

Este blog está de luto. Dia 24/03/2013 faleceu Lucas Amura, um grande entusiasta da língua portuguesa e de muitas outras línguas. (Mais informações aqui no site do Radiofobia e aqui no site do Jurassicast.)

Não tive o prazer de conhecer o Lucas na vida real, mas conheci seu trabalho na internet e sou feliz de saber que ele era leitor do meu blog Made in China. (Ouça aqui no Na Porteira Cast.)

Ainda estou chocada com a notícia e sinto uma tristeza profunda com a sua morte. Meus pêsames à sua esposa, à toda a sua família e aos seus amigos.

Deixo aqui o link para o projeto Português com Humor, na qual o Lucas fazia podcasts bacanérrimos em parceria com o Adriano Paciello. Fica também um apelo ao Adriano para que as últimas gravações sejam divulgadas, a podosfera agradece.

Descanse em paz, Lucas!

Sobre listas de coisas

Ontem eu estava conversando com um amigo sobre dar aulas de português e uma das coisas que eu não faço de jeito nenhum ao ensinar é listar coisas do mesmo gênero.

Por exemplo, dar uma aula sobre o tópico frutas e ensinar todas as frutas num dia só, banana, maçã, uva, kiwi, abacaxi. Ou dar uma aula sobre dias da semana, meses do ano, períodos de tempo tudo junto.

Eu faço isso pela minha própria experiência como aluna de línguas estrangeiras, acho que só dificulta as coisas. Eu tenho um problema sério, por exemplo, com números em japonês, eu sei alguns bem como o um, o três e o nove. Os outros, eu tenho que contar a partir do um porque eu aprendi a rezar na ordem, então pra falar o cinco eu tenho que ir repetindo, ichi, ni, san, shi, go, ah, cinco é go.

Então, nas minhas aulas, eu gosto de ensinar um número por um e não ensino na ordem. Uma aula eu ensino o três e o nove, daí na outra eu ensino o seis e só depois ensino o oito. Acho que isso cria a independência de qual número é qual na cabeça.

Gosto de fazer isso pra tudo, não ensino abecedário na ordem, A, B, C, D, eu ensino as letras que são úteis primeiro pra pessoa. Pra um estrangeiro no Brasil, por exemplo, é necessário saber soletrar o próprio nome, porque provavelmente vai ser difícil de entender quando a pessoa dá essa informação, então é uma coisa útil desde o início. Sabendo isso, vou ensinando as letras aleatórias e em pouco tempo a pessoa realmente sabe todas as letras, ao invés de saber cantar o alfabeto e confundir letras parecidas.

Pra quem tem vários alunos ou várias turmas diferentes e nunca pensou nisso, sugiro o teste: ensine do jeito tradicional para um e do jeito desorganizado para outro e depois venha me contar o resultado.

Aula 02/04/2013: alfabeto completo

Boas novas, a minha aluna passou no exame de vista pra tirar a carteira de motorista.

Pode ser simples pra quem é brasileiro (e enxerga bem) mas pra ela foi uma grande conquista, porque ela aprendeu o alfabeto inteirinho em poucos dias, superando as difíceis letras J, Y, F, R e por aí vai.

Eu estava apreensiva quando ela me contou que ia fazer o exame e que o tradutor ia junto mas não ia poder ajudar no exame, mas chegando lá, o médico falava inglês! (Ufa!) No entanto, já que ela já tinha estudado tudo, fez o exame em português e passou. Parabéns!

Além do alfabeto ensinei as três cores do semáforo porque vários exames que fiz pediram isso e ela ainda pediu para ensinar como falar algumas partes do corpo, mãos, braços e posições tipo para cima, pra esquerda, pra direita, porque ela achava que isso podia cair. No fim, não precisou nada disso. Agora, rumo ao exame psicotécnico ^^.

Aula 26/03/2013: retirar

Mais coisas de estrangeiro morando no Brasil: “o que o garçom pergunta quando ele vem tirar os pratos?”

Fiquei pensando e falei que devia ser algo como “posso retirar?”. Escrevi a frase para a minha aluna e ela imediatamente lembrou de um outro lugar onde aparece o verbo retirar. Pense aí onde aparece, vê se você se lembra.

 

 

 

 

Lembrou?

 

 

 

 

 

 

Pensa mais um pouco, vai…

 

 

 

 

Ok, eu conto. Aparece na máquina do cartão de débito / crédito, PODE RETIRAR O CARTÃO.

Ah, como a imersão é tudo nessa vida pra aprender uma língua nova. Eu adoro esses momentos que a minha aluna tem, de finalmente desvendar mais um misteriozinho da vida no Brasil, me traz muitas lembranças de como dia após dia eu ia aprendendo mandarim na China.

Segunda aula: obrigada, viu?

Na aula de hoje a Miwa-san me perguntou o que a gente fala depois de obrigada e eu não conseguia pensar em nada.

Ela falou que sempre ouvia alguma palavrinha bem curta depois de obrigada. Falei pra ela tentar falar e ela falou que era tipo obrigada, viu?.

Aaaaaah, obrigada, VIU?

Achei demais. Como eu nunca tinha reparado nisso? Falo direto (e hoje ela repetiu quando eu estava indo embora, que fofinha!)

No meio da aula tocou o telefone, ela atendeu e falou em português: Desculpa, eu não entendo português. Que maravilha! Acho que as aulas estão sendo úteis já.

Depois ela ainda me falou que não se usa muito a palavra sim. Que as pessoas falam isso pra ela. Isso mesmo, é assim que se aprende português!

A primeira aula de português

A primeira aula foi normal, sem grande acidentes. Começamos com um “Pimsleur” adaptado e fomos até a metade da aula um.

A Miwa-san sabe falar bastante coisa em português, mais do que eu imaginava. É legal ver como ela tem um vocabulário do dia-a-dia, e as coisas que ela falou que quer aprender. A primeira coisa foi “como falar para vendedores que estou só olhando?”. Necessidade básica, vendedores atrás são chatos em qualquer lugar.

Outra coisa que ela quis aprender foi o abecedário, coisa que eu fazia com minhas outras alunas. Vou aos poucos e não ensino na ordem, prefiro ensinar as letras mais comuns e todas as palavras novas daqui pra frente vão ser soletradas em português, assim usamos tudo o que é aprendido.

Ensinar português para estrangeiros: como tudo começou

Há uns meses eu vi uma vizinha na portaria do prédio e achei que ela era chinesa, então fui tentar conversar. Já cheguei falando nihao e ela não entendeu nada. Foi uma pequena confusão porque os filhos dela estavam entrando no ônibus pra escola e ela também não falava português, daí pedi desculpas e segui meu rumo.

Daí há duas semanas, eu já tinha esquecido daquele dia, eu estava correndo perto de casa e ela veio falar comigo em inglês, perguntando se eu era coreana. E assim conheci a Miwa-san.

Comentei com ela que ela poderia me ensinar japonês e ela propôs que eu ensinasse português em troca. Mal sabia ela que esse é um dos meus passatempos favoritos desde que morei na China ^^.

Assim, nasceram dois blogs: este aqui, o Made in Brazil, sobre ensinar português, e o irmão gêmeo (bivitelino ^^), Made in Japan, sobre aprender japonês.